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“A marca na testa” – por Fredi Camargo

Cientista Político Fredi Camargo (Foto: Divulgação)
Cientista Político Fredi Camargo (Foto: Divulgação)

Enquanto boa parte das pessoas no Brasil está ocupada discutindo coisas do seu cotidiano, outra boa parte está inserida em discussões morais mais elevadas. Isso é normal e faz parte da nossa cultura, afinal, somos um país continental e temos um multiculturalismo que nos permite este tipo de realidade.

Obviamente as ferramentas de mídia existentes podem contribuir com a disseminação de certos temas de discussão, tornando-os relevantes ou não para o desenrolar de nossas vidas. Em uma era onde a informação tem muito mais velocidade e é produzida numa escala maior do que as pessoas podem absorvê-la, vamos nos ater a dois pontos que foram trazidos à discussão nesta semana.

O caso do menino que teve tatuada em sua testa a mensagem “sou ladrão e vacilão” tomou conta de boa parte desta esfera de discussão da sociedade. Uns contra, outros a favor da ação dos tatuadores e todos com suas razões. Alguns mais exaltados que outros, mas tudo dentro da normalidade democrática em que vivemos.

Porém, a reflexão que faço é de quão rasa às vezes é nossa sociedade em termos de engajamento político nessas esferas de debates. Mesmo que hoje tenhamos ainda mais pessoas dedicando seus tempos em redes sociais ponderando seus pontos de vistas a respeito de política, ainda vejo que a discussão não transcende o nível de passionalidade que estes interlocutores trazem à tona.

A ideia de brigar por A ou B ainda é predominante nas rodas de conversas e acaloradas discussões virtuais e pessoais. Mas não é isso que precisamos discutir. Enquanto o brasileiro não entender como as instituições legais funcionam, e para quem elas funcionam, no país, nada além desse tipo de discussão rala será executado no meio popular.

Precisamos entender a montagem de um TSE por exemplo. Como é que ele funciona? Para que ele serve? Que grau de influência ele exerce nas nossas vidas? Quem faz parte desta Corte?

Ao respondermos estas perguntas básicas, começaremos a nos dar conta de que o povo possui prestígio muito baixo perante os poderosos. Veremos que as atividades que determinam muito nosso futuro, aqui no plano real da república, no dia a dia da grande maioria da população, são na verdade ações voltadas para protegerem os que estão no topo da pirâmide social.

Não importa partido, não importa ideologia, não importa história, quando se tem um poder financeiro próprio ou que te sustente no poder político da nação. O Julgamento estapafúrdio do TSE na semana passada, inocentando a chapa Dilma-Temer pelo simples fato de existirem provas posteriores à acusação, ou que não se referiam diretamente ao que foram acusados os dois candidatos eleitos, mostrou que tanto faz ou tanto fez se o povo está indignado com tudo o que se passo na esfera política brasileira. Institui-se assim a lei da vantagem do poder econômico sobre a moral.

Nosso Tribuna Superior Eleitoral mostrou que quando se trata de busca pelo poder e se amarra bem as informações utilizando-se as brechas da lei, vale tudo. Podemos nos regozijar em sermos um povo que sabe discutir moralmente se a ação de tatuarem a testa de uma pessoa é moralmente aceita ou não, pendendo para uma contrariedade e até certa compaixão humana com o ocorrido. Mas jamais seremos verdadeiramente uma nação enquanto estiverem, lá do alto do poder central, no marcando na testa com a frase “acreditem em nós, vacilões” e estivermos aceitando estas atitudes com a mesma passionalidade de quem discute quem é o melhor ladrão na nossa política.

Boa semana!
Fredi Camargo – Cientista Político
Contato: cc.consultoria33@gmail.com