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“A política é a arte da relação humana em troca de poder – parte 1” este é o artigo desta semana de Fredi Camargo

Fredi CamargoNas vésperas da decisão do Senado a respeito da cassação do mandato da presidente Dilma Roussef, encontramos novamente a discussão sobre o motivo real dessa ação que voltará a ser discutida com mais ênfase pelo país apesar das Olimpíadas. Ficando fora da polarização sobre o golpe ou não golpe que se debate pela nação, quero chamar atenção para um ponto crucial que poucos expuseram nesse episódio: o trato dos políticos com seus pares.

A história recente nos mostra que outro presidente, Fernando Collor, teve seu mandato caçado pelo Congresso por causa de irregularidades em sua campanha. Mas o que a grande parte da população não sabe, no entanto, é que Collor criou a situação de seu impedimento. Isso se deu no momento em que ele virou as costas para o patrimonialismo e corporativismo históricos na política brasileira e não abriu brechas para um time de ministros políticos, montando uma equipe basicamente técnica que tomou medidas impopulares ao modo de operação vigente até então.

O diálogo de Collor com o Congresso começou a estremecer no momento de sua eleição, já que sua base partidária era irrisória e na realidade o apoio populista à ele veio mais em rejeição ao opositor do que real aceitação de seu projeto. Na montagem de sua base de apoio política ele optou por não exercer o que todos fizeram e praticamente virou as costas para figuras políticas, deixando os apadrinhados de deputados, senadores e presidentes de partidos de lado em primeiro e segundo escalões de seu governo. Além disso Collor criou uma blindagem em sua imagem, onde as relações pessoais e suas ações cotidianas eram renegadas pelos políticos tradicionais já que eles não tinham a atenção e o “carinho” que amaciassem seus egos por parte do presidente.

Dilma optou por parte desse comportamento, alterando o que a agenda de sua campanha previa e montando uma linha de governo em seu segundo mandato que virou as costas para esse viés populista que Lula implantou e vinha até então dando bons frutos políticos. Porém, além da estratégia política, o que contou bastante para a presidente foi seu estilo pessoal.

Um estilo centralizador, quase ditatorial, de uma pessoa que não costumava receber bem seus interlocutores foi um dos maiores fatores para o afastamento dela do poder. Isso porque ministros, lideranças partidárias e até mesmo apoiadores de longa data eram de certa forma desprezados e mal atendidos em seu gabinete. Eis a discussão que não se fez, Dilma teria sofrido o mesmo desgaste se tivesse sido mais amável com seus pares?

É certo que a cultura brasileira prefere o estilo mais sedutor do populista, do líder carismático que atrai as pessoas não só pelo conhecimento mas sim pelo seu jeito de tratá-las. O que parece ainda ser um paradigma para muitos políticos que ainda agem de forma truculenta com seus companheiros e funcionários, mostrando que estão vivendo em uma época atrasada em termos de relacionamentos profissionais e pessoais. Mas isso é assunto para a próxima semana.

Boa semana!

Fredi Camargo – Cientista Político
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