Social Lajeado

Mês da Consciência Negra tem roda de conversa com participação da Emater/RS-Ascar

Como parte da ampla programação que celebra o Mês da Consciência Negra em Lajeado, integrantes do grupo quilombola Unidos de Lajeado, com o apoio da Emater/RS-Ascar e da Prefeitura realizaram na quarta-feira (20/11) uma roda de conversa com o tema “Quais os efeitos na sociedade após a morte de zumbi”? A atividade ocorreu no auditório da Casa de Cultura e contou ainda com a participação de lideranças, pesquisadores, estudantes e representantes de entidades com o objetivo de discutir o racismo institucional entranhado na sociedade. 

Sociólogo da Emater/RS-Ascar, o extensionista Carlos Maciel salientou o fato de que o Brasil segue sendo um País racista em sua origem, havendo ainda muitas desigualdades. Citando a famosa frase da filósofa americana Angela Davis, lembrou que em uma sociedade racista não basta apenas não ser racista. “É preciso ser antirracista”, referiu. Para o sociólogo, vigora no País uma cultura de “paz e amor”, de que todos “devem ser tratados iguais”, de que as “coisas se resolvem”, mas há uma dívida histórica relacionada aos negros, ao escravagismo e a todo o tipo de preconceito. “E é isso que temos de combater”, afirmou. 

Falando especificamente sobre a morte de Zumbi, o historiador Gilson Anjos salientou a importância de reescrever uma história que muitas vezes é abordada pela ótica eurocêntrica. Como exemplo, citou a ingenuidade em acreditar que, com a Lei Áurea assinada, lá em 1888, os escravos tenham se tornado efetivamente livres. “E as famílias desses escravos? Para onde ir após livres, sem propriedade, sem destino? E quando se tornaram de fato, livres?”, questionou. “E é por isso que é importante a representatividade, que ecoa resistência e que faz ressoar as vozes que ficaram ‘perdidas’ nos quilombos e que devem ser resgatadas”, frisou. 

Representante do Grupo de Capoeira Oxósse de Lajeado, Paulo Renato Narciso, o Mestre Karkará, concordou com Gilson, ao afirmar o incômodo por aquilo que pode ser definido como os “pequenos racismos do dia a dia”. “É a senhora que atravessa a rua quando estamos passando, ou a pessoa que nos atende com má vontade por conta da cor da nossa pele”, ponderou. Para ele, o que acaba pesando mais é a perda da identidade cultural dos negros, no Vale do Taquari. “Aqui, se eu fizer uma roda da capoeira em determinados lugares, vão considerar ofensiva a nossa música, a nossa alegria, os hábitos e costumes”, pontuou. 

Já a representante da comunidade quilombola, Camila da Silva, destacou a importância de políticas públicas de cotas e de se cultivar o respeito às diferenças nas escolas. “Se o jovem não se sente acolhido no colégio, ele poderá se sentir acolhido em outros lugares, como no crime”, lembrou. Mãe de Camila, dona Ivani da Silva contou parte da história de Geraldo Teobaldo da Silva, que foi escravo e chegou à região por volta do ano de 1800. Criador do quilombo, faleceu há uma década aos 123 anos. “A sua longevidade se deve à persistência, a alimentação saudável e ao uso de plantas medicinais”, comentou dona Ivani. “Certamente aprendemos muito com ele”. 

O evento contou ainda com a participação do historiador Jones Fiegenbaum, que fez um relato histórico sobre os eventos que levaram à morte de Zumbi e do supervisor da Emater/RS-Ascar, Álvaro Mallmann que destacou o apoio da entidade às comunidades e povos tradicionais, além de representantes da Procuradoria da República e da Câmara de Vereadores. O Mês da Consciência Negra segue com diversas atividades culturais, com dança, declamação de poesia, cinema, contação de histórias e palestras. Todas as informações podem ser obtidas na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Lajeado.

 

 

Assessoria de Imprensa da Emater/RS-Ascar – Regional de Lajeado
Jornalista Tiago Bald