Artigos - Desenvolvimento Rural

Os efeitos do estresse térmico na piscicultura

Estamos vivendo momentos de altas temperaturas do ar e da água e muitos produtores tem procurado os técnicos da EMATER/RS Ascar para orientações, pois temos casos de mortalidades e doenças.

Os peixes são animais que  regulam seu metabolismo conforme a temperatura do ambiente, são por isso chamados de termoconformadores.

Cada espécie de peixe tem uma temperatura em que seu metabolismo funciona melhor, que é chamada de temperatura ótima. Assim, quando os peixes ficam expostos às temperaturas acima ou abaixo da sua temperatura ótima têm seu crescimento reduzido. E, quando submetidos a temperaturas extremas, eles têm diminuição da taxa de crescimento ou, em muitos casos, podem morrer. Isso porque águas com temperaturas muito elevadas podem acarretar dificuldade nos processos de digestão dos peixes e redução da sua capacidade de absorver os nutrientes dos alimentos.

A temperatura da água afeta aos peixe de maneira positiva quando se encontra dentro da faixa ideal de cada espécie e negativa quando se encontra fora desta.

De modo geral os peixes de cultivo apresentam o melhor desempenho quando estão entre 24 a 28 graus centígrados, estamos aqui falando das carpas, das tilápias, dos jundiás, lambaris  e traíras, que são os peies mais criados nos açudes da região pelos produtores rurais familiares nos açudes das propriedades.

Para compreender os efeitos da temperatura da água nos peixes e nos demais organismos que existem na água e que chamamos de plânctons devemos estudar cada efeito destes em separado.

Quando está muito quente os peixes necessitam uma maior quantidade de oxigênio dissolvido para respirar, mas ocorre que quanto mais quente, mais rápido ocorrem as reações de decomposição da matéria orgânica dos açudes e estas consomem mais oxigênio.

A velocidade das reações químicas dobra ou triplica para cada 10 graus de aumento da temperatura. Isto leva a um consumo do oxigênio dissolvido muito maior quando a temperatura se eleva.

A molécula de água possui um oxigênio ligado a dois hidrogênios, mas esta ligação é muito forte para ser quebrada e os peixes só conseguem respirar o oxigênio livre, dissolvido na água. Os produtores deste oxigênio são as algas, principalmente as algas verdes que fazem durante o dia a fotossíntese que é a transformação dos nutrientes químicos da água e sua transformação em glicose (energia), reação esta que ocorre na presença da luz do sol e libera oxigênio dissolvido para a água.

Este O2D (oxigênio dissolvido), deve se encontrar em concentração ideal de 5 a 8 mg/litro, e com isto manter a possibilidade dos peixes respirarem durante a noite, assim como as próprias algas, os demais organismos do plancton e os processos de oxidação da matéria orgânica. Quando a temperatura ultrapassa os 28 graus centígrados na água este equilíbrio fica desajustado e se inicia a falta de oxigênio durante a noite, falta esta que se agrava no final da noite e começa a melhorar quando chegam os raios de sol e as algas reiniciam a fotossíntese.

O comportamento dos peixes é típico quando da falta de oxigênio, em primeiro lugar eles simplesmente ignoram a comida, também se houver uma entrada de água que caia sobre o açude, neste local os peixes irão se acumular pois o choque provocado pela queda da água irá adsorver oxigênio do ar criando uma região mais favorável à respiração.

Quando não houver entrada de água os peixes irão subir para a superfície, ficarão boqueando ar com água na tentativa de respirar melhor. Isto quando o problema está começando irá ocorrer nas primeiras horas do dia.

Quando ocorre falta de oxigênio na água os peixes imediatamente suspendem a alimentação. Se o produtor não souber observar isto e fornecer mais alimento do que os peixes comem esta sobra gerará material orgânico que vai decompor e gastar mais ainda o oxigênio do ambiente.

A digestão do alimento também fica prejudicada pelo excesso de temperatura, pois este processo será acelerado, chegando ao ponto do peixe ingerir o alimento, iniciar o processo digestivo mas não ter tempo de absorver os nutrientes no trato digestório.

Há ainda a questão dos peixes serem termoconformadores, em resumo quando a temperatura aumenta eles aumentam a velocidade de consumo de alimentos e este aumento vai até o limite da velocidade de passagem do alimento no trato digestório ser maior que a capacidade do intestino absorver o alimento digerido. Mas quando a temperatura baixa, os peixes precisam fazer o que chamamos de depuração ou seja, retiram tudo o que tem no trato digestório, baixam o metabolismo até regularem a digestão com a temperatura mais baixa e somente após reiniciam o consumo de alimentos.

 

O que fazer então?

Nossa sugestão é que os produtores criem seus peixes em águas verdes e observem a transparência desta. Quando se tem a possibilidade de enxergar a 30 cm dentro da água, isto quer dizer que a água tem possibilidade de manter os peixes em uma proporção de até no máximo 1 kg por metro quadrado de superfície de viveiro considerando que este tenha uma profundidade média de 1,2 metros de profundidade.

Quando esta transparência estiver menor que 30 cm o produtor deverá trocar a água, ou retirar uma parte dos peixes, ou utilizar-se de um sistema de oxigenação artificial ou reduzir a alimentação ao mínimo ou mesmo combinar estas ações,  pois senão estará correndo o risco de faltar oxigênio dissolvido durante a noite que quando chegar a menos de 1,5 mg/litro e iniciarão as mortalidades.

O Ph da água para as espécies criadas deve ficar em torno de 7,0. Recomenda-se que os produtores façam a sua leitura a cada 15 dias e desta forma possam saber se há necessidade de correção. Caso esteja abaixo de 7,0 usa-se 30 gramas de calcário do tipo FÜLLER por metro quadrado de viveiro e vai-se repetindo esta dosagem a cada leitura que der resultado abaixo de Ph 7,0.

 

 

João Alfredo de Oliveira Sampaio – Zoot. MSc. Aquicultura
ATR Produção Animal – ESREG Lajeado.