Social Educação Lajeado

Profissionais participam de curso de prevenção à violência sexual infantil

Profissionais de educação da rede pública, privada e municipal de Lajeado, da saúde, segurança, assistência social e conselheiros tutelares participaram nesta terça-feira, 18/06, do curso de Metodologias e Prevenção de Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes na Perspectiva da Autoproteção, no teatro do Colégio Evangélico Alberto Torres (Ceat). O evento, alusivo ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil, celebrado oficialmente no dia 18/05, foi realizado pela Prefeitura de Lajeado, por meio das Secretarias da Educação (Sed) e do Trabalho, Habitação e Assistência Social (Sthas). A capacitação é uma das primeiras ações vinculadas ao Pacto Lajeado pela Paz, e foi ministrada pela pedagoga e educadora sexual, Caroline Arcari.

O prefeito Marcelo Caumo, a vice-prefeita Gláucia Schumacher e a coordenadora executiva do Pacto, Beatriz Bigaton, estiveram presentes no evento. `Esse evento é uma das primeiras ações que já estão incluídas no Pacto, justamente para conseguirmos dar uma atenção especial para as crianças que sofrem algum tipo de violência, oferecendo um melhor atendimento para elas“ disse o prefeito Marcelo Caumo.

Desde 2015, o Município de Lajeado, por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), em parceria com escolas, vem desenvolvendo ações de prevenção à violência sexual de crianças e adolescentes, usando como dispositivo a cartilha Pipo e Fifi, elaborada por Caroline Arcari. 

Para marcar o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, dar continuidade à Campanha de Prevenção e fortalecer a rede de atendimento à criança e ao adolescente do município, a palestrante convidada foi a autora da coleção Pipo e Fifi, Caroline Arcari. Os livro infantis são lúdicos e funcionam como uma ferramenta de proteção, explicando às crianças, a partir dos 3 anos de idade, conceitos básicos sobre o corpo, sentimentos, convivência e trocas afetivas.

Durante o curso, Caroline apresentou dados estatísticos, explicou o perfil do abusador, a diferença de um comportamento típico da criança do comportamento atípico, que pode sinalizar um abuso. Também, explicou as fases do desenvolvimento psicossexual da criança, e sobre o conceito de sexualidade, cujo conceito, segundo a autora, é a base para entender o que é violência sexual e como enfrentá-la.

“Para a gente ter diálogo de autoproteção com as crianças é preciso falar sobre sexualidade, pois é a base para a criança entender o que é violência sexual, o que são as partes íntimas, o que é parte sociável e o porquê adultos fazem isso. As crianças possuem o direito de saber a verdade, e quanto mais informação elas tiverem, mais protegidas estarão” explicou Caroline, que interagiu e instigou o público a refletir sobre o assunto.

Saiba mais sobre Caroline Arcari

Caroline é pedagoga e educadora sexual, especialista em educação sexual pelo Centro de Sexologia de Brasília (CESEX) e mestre em educação sexual pela Universidade Estadual Paulista(UNESP)Caroline é fundadora e atual presidente do Instituto Cores, onde já formou mais de 20 mil educadores em diversos municípios em benefício de mais de 250 mil alunos. É escritora do livro Pipo e Fifi, cuja obra recebeu o prêmio de melhor trabalho no congresso de educação sexual da Universidade do Minho, em Portugal. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, é consultora e parceira do programa Encontro com Fátima Bernardes e está escrevendo os próximos livros da coleção Pipo e Fifi.

Confira a entrevista com Caroline Arcari

As crianças que estão sofrendo abusos e caladas, demonstram comportamentos que podem ser percebidos?

Primeiro, o adulto precisa saber quais são os comportamentos típicos de como a criança descobre o mundo. Só depois disso, poderá diferenciar o que são os comportamentos clássicos da violência sexual. Entre alguns comportamentos clássicos da violência sexual, verifica-se que eles envolvem uma mudança na rotina, mudança nos hábitos de brincar. A criança fica apática e começa a ter brincadeiras com teor mais sexualizado e erotizado, voltando a ter hábitos mais infantilizados como ‘chupar dedo’, e pesadelos. É claro que esses comportamentos não vêm isolados. Mas dentro de um contexto e de uma boa percepção, é possível levantar uma suspeita para que essa criança seja atendida.

Qual recado deixaria para as famílias sobre a educação sexual?

Crianças que apanham têm mais dificuldade em relatar violência sexual. Então, caso elas sofram alguma violência sexual, não contam para a família por medo de apanhar. Acredito que uma educação pautada na não violência e no diálogo ajuda bastante. Por exemplo, perguntar o que ela fez durante o dia, olhar para a rotina, encontrar espaços pra falar sobre sexualidade, não tervergonha de orientar os filhos, não ter medo de passar informação, pois a informação não erotiza, pelo contrário, a informação pode proteger. Também, aproveitar os momentos do banho e falar claramente quem pode e quem não pode tocar, que ela pode pedir ajuda se qualquer coisa acontecer. É importante a família se informar e saber que na maioria dos casos, a violência acontece dentro de casa e, principalmente, a família deve acreditar na criança e providenciar ajuda.

Por que ainda existem tantos tabus sobre o assunto?

Existem tantos tabus porque nós estamos em uma sociedade que não fala sobre sexualidade. E se não falamos, é ainda mais difícil para a gente falar sobre a violência sexual. A sexualidade foi um mecanismo de exercício de poder. Historicamente, apresentamos essa dificuldade de encarar a sexualidade, de abordar e estudar. Ou seja, faz com que a gente tenha dificuldade de entender a violência sexual e como a criança também se apresenta à frente dessas situações. Algo importante é ver essa criança como um ser sexuado, ou seja, a criança tem um corpo completo, tem curiosidade, sentimentos e emoções e precisa ser tratada como tal.

Texto e fotos Pietra Darde
Assessoria de Imprensa de Lajeado