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“Saúde mental e trabalho – uma discussão sobre a origem do sofrimento” este é o artigo da psicóloga Carol Sofia

Carol SofiaA Psicopatologia do Trabalho estudada ainda hoje, tem na obra de Christophe Dejours uma de suas principais fontes de referência. Os estudos relacionados à saúde mental no trabalho, comparados à história da psicologia, são bem recentes e datam da década de 50. A visão de sofrimento no trabalho, que começou a ser estudada na época, tem contribuído para o seu desenvolvimento aprofundando principalmente as causas do sofrimento, os conceitos de normalidade e sofrimento no trabalho.

Dejours acredita que a primeira vítima do sistema não é o aparelho psíquico/mental, mas sim o corpo que ao ingressar no meio laboral é disciplinado a obedecer horários e à atividade laborativa. Este corpo torna-se fragilizado, ainda mais quando o trabalho priva o sujeito de pensar, realizando atividades repetitivas e mecaniscistas. Alguns sujeitos submetidos a locais de trabalho extremamente massificantes, acabam perdendo sua identidade como tais, ou ainda, tornam-se apenas mais uma cópia do que os demais colegas apresentam. Aquele que faz parte destas organizações tem sua subjetividade reprimida, não pensa sobre si, não pensa sobre seu fazer, não compreende a finalidade do que faz, apenas reproduz o que esperam dele trazendo para si o sofrimento laborativo. A forma que o indivíduo encontra para resistir e sobreviver ao seu meio de atividades, quando este lhe causa sofrimento, é desenvolvendo mecanismos de defesa.

Alguns empregos, de forma distinta, proporcionam certo reconhecimento pessoal da qualidade do trabalho apresentado e acabam fortalecendo a identidade do operário. O reconhecimento da qualidade do trabalho também proporciona a ideia de acolhimento no grupo de trabalho. Assim para Dejours, este reconhecimento confere ao colaborador, em troca do sofrimento, um pertencimento que gera satisfação. É esta dinâmica que produz a construção da identidade laborativa a qual mantém a saúde mental do trabalhador.

Na produção da identidade advinda do trabalho o sujeito estabelece uma relação com os demais sujeitos do meio, elencando papéis para aqueles que com ele se envolvem. Assim o chefe ou líder, colegas, subordinados, e toda a rede acaba assumindo postos os quais são de interpretação de cada um. Na relação com os demais papéis o sujeito também espera a inserção no grupo, o pertencimento e o reconhecimento. É nesse meio que a construção da identidade entra como o fundamental, pois se o sujeito tem sua estrutura bem definida e acredita em si ele não entra em crise interna, não se desestrutura e por fim não é acometido de doenças. Na maioria das vezes as relações com os demais autores do meio laboral e com o reconhecimento não são de acordo com o esperado. É nesse contexto que os mecanismos de defesa mantém a estrutura psicológica e mascaram a realidade tornando-a suportável ao indivíduo. Em alguns casos equipes inteiras de trabalho mantém sua base estrutural de identidade, pois desenvolvem mecanismos de defesa coletivos. Estes mecanismos de defesa são uma espécie de máscara da realidade que criamos para nós mesmos e que nos fazem enxergar o mundo de uma forma maus branda e suportável. Eles reduzem por hora o sofrimento, mas a longo prazo geram adoecimento.

A melhor forma de identificar os adoecimentos mentais, sejam provenientes do ambiente laborativo, ou não, é se conhecer e entender melhor de si. Olhe para você mesmo e como está interagindo com o seu mundo, se está satisfeito consigo. Se perceber que algo está fora do normal ou não está indo como deveria e entender que a situação possa ser pior do que pareça, busque auxílio.

Boa semana!!

Carol Sofia é Psicóloga e Especialista em Gestão e Docência de Ensino Superior.