Artigos - Desenvolvimento Rural

Tuberculose Bovina – por Martin Schmachtenberg

Martin Schmachtenberg

A tuberculose é uma doença crônica causada por bactérias do gênero Mycobacterium que acomete ruminantes, suínos, aves, animais silvestres e humanos. A mesma apresenta crescimento lento e é muito resistente em ambientes úmidos. A tuberculose bovina é causada pelo Mycobacterium bovis (M. bovis) e é responsável por perdas econômicas significativas. Além do impacto econômico, devido aos gastos com testes, perda na produção de leite e no valor do animal, a tuberculose bovina constitui uma das zoonoses (Zoonoses são doenças infecciosas capazes de ser naturalmente transmitidas entre animais e seres humanos)  de maior relevância em saúde pública especialmente quando consideramos países em desenvolvimento onde a doença não está controlada e o consumo de leite cru e seus derivados,  bem como carnes e embutidos provenientes de abates clandestinos, são frequentes.

A doença está amplamente distribuída em todo o mundo, sendo alvo de programas de erradicação em diversos países. No Brasil, órgãos oficiais estimam que a prevalência da doença esteja ao redor de 1% e, até o presente momento, não há programa de erradicação obrigatório.  Devido à manifestação clínica, em muitos casos sem sintomas aparentes, frequentemente a tuberculose bovina é negligenciada em seu diagnóstico. A importância do controle da tuberculose bovina no Brasil levou o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a instituir, em 2001, o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose (PNCEBT). Programa de adesão voluntária que regulamenta as estratégias de controle e visa reduzir a prevalência da doença no país. O programa preconiza a tuberculinização como teste de diagnóstico, porém, é o proprietário quem deve arcar com os custos.  Porém há outros métodos que podem auxiliar na identificação da doença nos rebanhos. A inspeção sanitária de produtos de origem animal é uma forma rotineira de diagnóstico da doença. A inspeção feita em todas as carcaças bovinas durante a linha de abate em frigoríficos e abatedouros inspecionados tem um papel importante na detecção de rebanhos infectados, contribuindo ativamente para o sucesso dos programas de controle e erradicação. Por isso a importância dos consumidores em adquirir produtos de origem animal de estabelecimentos com inspeção oficial (SIM; CISPOA; SIF).

A principal via de transmissão da tuberculose bovina é pelo ar, sendo a inalação de aerossóis a mais comum, o que é intensificado quando os animais estão em lugares fechados e com aglomeração. O mesmo ocorre nos locais com pouca incidência de raios solares e ventilação, pois tais condições favorecem a transmissão. O contato direto (focinho com focinho) com secreções nasais e a ingestão de leite cru de animais infectados também constituem possíveis vias de transmissão, esta última especialmente importante quando consideramos a infecção de animais jovens.

Outra porta de entrada da tuberculose bovina no rebanho são os animais infectados. Pode ocorrer quando o produtor faz a aquisição de um animal, ou mesmo quando leva os seus para participar de algum evento. Portanto, é muito importante tomar precauções como exigir testes negativos ao fazer a compra.

A doença se desenvolve lentamente e pode levar meses até o aparecimento dos primeiros sintomas, sendo que a maioria dos infectados não irão apresentar sintomatologia clínica apesar de serem capazes de eliminar a bactéria no ambiente e no leite, representando importante fonte de infecção. Desta forma é importante identificar os animais positivos e eliminá-los do rebanho.

Testar e eliminar animais positivos da propriedade é estratégia indispensável para o produtor que queira erradicar a tuberculose em seu rebanho. Medidas de biossegurança como o controle de origem, correta identificação e teste de animais novos a serem integrados no rebanho, bem como o controle de visitantes e a correta higienização das instalações, são medidas fundamentais para proteger seu rebanho de novas infecções.

Apesar de uma evolução dos conhecimentos relacionados a área de saúde animal, atualmente não existe recomendação para tratamento da tuberculose bovina. A prevenção é considerada o ponto chave para realizar o controle. O objetivo é eliminar os animais identificados como positivos em no máximo 30 dias e incentivar a certificação dos rebanhos livres da doença.

Lembrando que a tuberculose bovina é causada pelo Mycobacterium bovis (M. bovis) e a humana pelo   Mycobacterium tuberculosis (M. tuberculosis) . Para os bovinos NÃO há vacina e nem tratamento contra a tuberculose. Os humanos SÃO vacinados contra a tuberculose (M. tuberculosis) e em casos positivos existe tratamento.  O contágio da tuberculose bovina para os humanos se dá por contato com qualquer secreções e líquidos, sendo a ingestão de laticínios contaminados e não fervidos a principal forma de transmissão do M. bovis. Era uma doença muito comum antes da invenção da pasteurização. Atualmente são raros os casos de contaminação por M. bovis em países no qual quase todo o leite é pasteurizado, mas diversos queijos ainda são feitos apenas com leite não pasteurizado e podem ser fontes de contágio, assim como as carnes e embutidos que não foram inspecionados.

No Fórum Tecnológico do Leite que será realizado dia 13 de novembro no Auditório Itália, na Prefeitura Municipal de Encantado, com início às 9 horas, uma das palestras irá abordar o Programa e Panorama da Tuberculose no Rio Grande do Sul. Será uma oportunidade para nos informarmos sobre este importante tema, seja do ponto de vista econômico e de saúde pública.

 

 

Martin Schmachtenberg
Médico Veterinário
Assistente Técnico em Produção Animal

Referências: Embrapa; Infoescola; Agrolink; BeefPoint; MilkPoint e Wikipédia.