Artigos - Saúde e Prevenção

“Pressão Alta” – por Marisa Mariotti e Cristiane dos Passos Mazzarino

Marisa Mariotti (Foto: Divulgação)
Marisa Mariotti (Foto: Divulgação)

A pressão alta atinge um em cada três brasileiros. Pior: metade deles não tem ideia de que convive com essa ameaça nos vasos, capaz de provocar infarto, derrame e lesões nos rins.  “Infelizmente, a hipertensão não costuma dar sinais de existência e se inicia muito antes de aparecerem as complicações”, contextualiza o cardiologista Luiz Bortolotto, diretor da Unidade Clinica de Hipertensão do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo, o InCor.

Daí vem àquela máxima, um tanto difícil de ser transportada à realidade: quanto mais cedo se diagnostica o problema, maior a chance de prevenir os estragos. Mas imagine agora se as pessoas com pressão pudessem saber que correm o risco de se tornar hipertensas dali a alguns anos – e logo corressem para adotar medidas a fim de contornar o perigo. Eis a promessa de um teste usado por pesquisadores do InCor e das universidades Federal do Espirito Santo (Ufes ) e Federal de São Paulo (Unifesp), destaque na categoria saúde e prevenção do prêmio SAUDE 2013.

“É um exame de urina que acusa a presença de uma molécula envolvida na regulagem da pressão arterial, a enzima conversora de angiotensinas (ECA)90 Kda”, conta a bióloga Dulce Casarini, professora de nefrologia da UNIFESP, que investiga há décadas o papel das proteínas ECA no processo bioquímico que reage a contração e o relaxamento das artérias. “Nossos achados mostram que essa substância está associada a uma maior predisposição à hipertensão”, revela.

Um mal tão traiçoeiro como a hipertensão faz cientistas se debruçarem sobre as bancadas dos laboratórios na tentativa de encontrar maneiras de prevê-lo o mais cedo possível. Em 2013, por exemplo, uma pesquisa publicada pela Associação Americana do Coração, feita com jovens entre 10 e 19 anos, sugere que a presença de sódio na urina também sinalizaria uma boa probabilidade de desenvolver pressão alta na vida adulta. Mas o número ainda pequeno de participantes não dá margem a conclusões definitivas.

Cristiane dos Passos Mazzarino (Foto: Divulgação)
Cristiane dos Passos Mazzarino (Foto: Divulgação)

De fato, para chegar a um marcador como encontro pelo time de Dulce Casarini, o caminho é longo. Nesse caso, tudo começou nos anos 1980, quando a bióloga descobriu que a ECA tinha outras duas formas, a 65 e a 90, e nap apenas 190, como se pensava na época. “Esses números se referem ao peso molecular da enzima”, ensina.

“Chegamos a elas acidentalmente, quando analisávamos os efeitos de um medicamento anti-hipertencivo”, recorda. A professora resolveu investigar a proteína em ratos e os dados obtidos confirmaram que a ECA 90 mantinha relação direta com o aparecimento da hipertensão. “Fizemos, então, um microestudo com alunos de medicina da UNIFESP, acompanhado-os no 1º ao 6º ano de faculdade”, conta. Dos 120 volunáarios, 55 carregavam a substancia delatora na urina, e desses, cinco já apresentavam pressão alta ao fim do curso.

Era hora de partir finalmente, para um estudo populacional mais amplo. Há seis anos, isso passou a ser feito juntamente com um grupo coordenado pelo médico José Geraldo Mill, farmacologista da UFES, que investiga os fatores de risco cardiovascular entre os moradores de Vitoria, a capital capixaba. Mais de mil pessoas foram avaliadas levando-se em conta parâmetros como peso e altura, nível de colesterol, tabagismo e presença de hipertensão na família. A primeira parte da pesquisa apontou 90 com a doença. “Neste ano, vamos encerrar a segunda fase, quando teremos números concretos de quantos indivíduos que apareceram no grupo de risco se tornaram realmente hipertensos mais tarde”, anuncia Dulce.

A cientista adianta, que está quase pronto o kit que vai possibilitar a realização regular do exame. “Será um grande avanço detectar a propensão à pressão alta antes que ela apareça nos aparelhos medidores”, opina o cardiologista Juliano de Lara Fernandes, do instituto de ensino e pesquisa Jose Michel Kalaf, em campinas, no interior paulista. “Se um jovem de 20 anos tiver essa substância na urina, vai ser orientado a fazer ajustes no estilo de vida que o beneficiarão no futuro.”

A intervenção nesse momento, não será feita com remédios, mas por meio de hábitos como práticas de exercícios, controle do peso, redução no consumo de sal… Hábitos conhecidos que permitem se antecipar a um problema silencioso por natureza.

Enfermeira Marisa Mariotti  – Pós Graduada em Saúde Pública; Técnica em Enfermagem Cristiane dos Passos Mazzarino